Mais de 20 anos atrás, quando dava os primeiros passos, a Papel de Gente tinha uma proposta terapêutica ousada: queria valorizar as competências e a criatividade de pessoas com transtornos psíquicos, em vez de tratá-las do modo convencional, centrado na doença. “Achavam que eu era louca”, lembra a fundadora da organização, a psicóloga Eliana Tiezzi.

Isso porque sua ideia incluía colocar na mão dos pacientes instrumentos considerados perigosos, como tesouras, para produzir materiais de papelaria. Deu certo. Mais de 30 mil pessoas já passaram pela Papel de Gente e segundo Eliana, o índice de sucesso é muito grande, com redução de medicação e estabilidade no quadro.

A chave do trabalho da organização é a reinserção social a partir da produção de itens que têm uma destinação certa. Cadernos, blocos de nota, calendários e marcadores de livros são encomendados por empresas e feitos com papel reciclado. Cada paciente recebe de acordo com a sua produção. “A pessoa produz algo que irá para a mão de outra pessoa, que fará uma coisa com aquilo. Então ela entra em uma rede social de produção e de aquisição”, explica a idealizadora.

A escolha pelo material reciclado não é à toa, já que antes mesmo de entrar nessa rede social, o paciente se integra ao próprio planeta. “Nós os conectamos com uma produção de baixo impacto, travando uma relação de respeito e proximidade. Eles têm muita sensibilidade e é um conforto estar inserido, se sentir parte de algo”.

A ideia da reciclagem surgiu quando Eliana trabalhava em uma clínica psiquiátrica e ficou responsável por produzir cartões de Natal com os pacientes. As restrições eram muitas — eles não podiam nem mesmo usar pinceis. Assistindo a um programa infantil com a filha, aprendeu a reciclar papel e reproduziu a experiência na clínica. “Foi uma confusão, porque eles ficaram super impactados com aquele processo de transformação. Fizeram presentes para a família, decoraram o lugar e eu percebi que aquilo tinha valor. Comecei um estudo que virou esse projeto”, lembra.

Ela conta a história de um ex-cortador de cana que, após uma crise esquizofrênica, foi trazido pela família a São Paulo. No início, a família se revezava para levá-lo e buscá-lo na instituição, que então começou a fazer um trabalho para que ele se locomovesse sozinho. “Ele se tornou o maior produtor de folhas de papel do grupo e começou a ganhar melhor que os irmãos. Ele deixou de ser um peso e começou a ocupar um outro papel na casa”.

Eliana ressalta que a Papel de Gente é um local de passagem, já que o intuito não é formar técnicos em papelaria, mas usar essa produção como ferramenta para que o usuário consiga administrar seu foco e habilidades para suas áreas de interesse. “Ele não pode ficar parado no mesmo lugar. Sabemos que não estamos ali para resolver, mas damos ferramentas para que ele descubra o próprio caminho”, conta. Ela define a Papel de Gente como uma clínica do real, do cotidiano, e não uma clínica convencional.

Em 2017, a ONG completou 23 anos de atuação e levou à Avenida Paulista, em São Paulo, a primeira mostra “Que Loucura é Essa?”, um convite à reflexão sobre saúde emocional e ao questionamento sobre nosso cotidiano. A proposta é que ela seja estendida a outros locais e tenha mais edições nos próximos anos, contribuindo para que mais pessoas olhem para sua própria loucura e para seu papel como gente.

O texto e as fotos foram extraídos da matéria da Atados Histórias.

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